A decisão histórica do guitarrista do Queen vai além da música e expõe uma nova realidade para grandes artistas em turnê.
A música sempre foi um território de encontros, pontes culturais e celebração coletiva. Mas, em 2026, até mesmo gigantes do rock começam a repensar onde — e se — ainda vale a pena subir ao palco. Foi nesse contexto que Brian May, guitarrista e fundador do Queen, fez uma das declarações mais impactantes do ano: o Queen não pretende mais realizar turnês nos Estados Unidos.
A fala não surgiu como provocação, nem como estratégia de marketing. Pelo contrário. May foi direto, sóbrio e profundamente reflexivo ao afirmar que o país, que um dia foi o alicerce da ascensão global do Queen, hoje representa um risco que não pode mais ser ignorado.
Os Estados Unidos foram decisivos para transformar o Queen em um fenômeno mundial. Foi lá que a banda lotou arenas, quebrou recordes e consolidou sua identidade como um dos maiores nomes da história do rock. Justamente por isso, o tom da declaração soa quase melancólico. Não há desprezo, há luto. Um reconhecimento de que algo essencial se perdeu no caminho.
Segundo Brian May, o fator determinante é a segurança. Em um mundo onde episódios de violência em massa se tornaram recorrentes, grandes turnês deixaram de ser apenas eventos culturais para se tornarem operações de risco. Para uma banda do porte do Queen — que movimenta multidões, equipes gigantescas e logística complexa — ignorar esse cenário seria irresponsável.
A última grande turnê do grupo com Adam Lambert aconteceu em 2023, e desde então o futuro das apresentações ao vivo passou a ser revisto com mais cautela. May deixou claro: se o Queen voltar aos palcos, outras regiões do mundo serão priorizadas. Os Estados Unidos, ao menos por agora, estão fora do mapa.
Mas a posição do músico não se limita à segurança física. Ela também reflete uma postura ética que acompanha Brian May há décadas. Ativista dedicado à causa animal, ele também confirmou que não participará do Glastonbury Festival, citando divergências profundas com práticas que envolvem o extermínio de texugos no Reino Unido. Para ele, não existe separação entre artista e cidadão: subir a um palco também é um ato político e moral.
Essa coerência — rara em um mercado frequentemente guiado apenas por números — é o que torna sua fala tão relevante. Brian May não está apenas falando sobre o Queen. Ele está expondo um dilema que muitos artistas enfrentam em silêncio: até que ponto vale a pena seguir tradições quando o mundo mudou radicalmente?
Ainda assim, o guitarrista não decretou o fim da banda. Pelo contrário. Ele deixou claro que o Queen continua vivo como projeto criativo. Novas músicas, ideias e formatos seguem sendo possibilidades reais. O que muda é a lógica: menos obrigação, mais propósito.
Porque o Brasil representa exatamente o oposto desse afastamento. O país segue sendo um dos territórios mais apaixonados pelo Queen, com público fiel, energia intensa e forte conexão emocional com a banda. Em um cenário onde grandes artistas reavaliam rotas, a América Latina — e especialmente o Brasil — ganha ainda mais relevância no mapa da música global.
A decisão de Brian May é corajosa, lúcida e necessária. Ela desafia a ideia de que artistas devem seguir em frente a qualquer custo e reforça que legado não se constrói apenas com shows lotados, mas com posicionamentos claros. O Queen não precisa provar nada a ninguém — e talvez exatamente por isso possa se dar ao luxo de escolher onde, como e por que continuar.
Mais do que uma notícia sobre turnês, essa é uma reflexão sobre o mundo em que vivemos. E quando uma lenda do rock para, pensa e diz “não”, vale a pena ouvir.